quinta-feira, 16 de agosto de 2007

O Grande.... Chaplin


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O teatro de Ibsen sempre me impressionou. Aquelas mudanças inesperadas que ocorrem ao final de suas peças tiram nossa razão do eixo. Não é nada beckettiano, levando à reflexão crítica ou coisa parecida. Casa de bonecas faz com que lancemos nosso olhar para nosso próprio comportamento, para nossas próprias atitudes. E essa é uma qualidade que muito aprecio em uma obra literária.

Mas nunca tinha experimentado essa reflexão na chamada Sétima Arte. Franz Capra fez algo genial com Felicidade não se compra. Esse é o tipo de filme que, após assistir a cena final, a gente fica estático por um bom tempo. Ocorre um tipo de catarse que realmente nos leva a uma profunda reflexão interior. Mas não era semelhante à literatura.
Até que assisti a O Grande Ditador, de Charles Chaplin. Para limitar, me aterei somente às semelhanças desse filme com a obra de Ibsen. O filme é vasto de temática e claro está que não abarcarei todos os aspectos apresentados nele.

No decorrer de todo o filme, o barbeiro judeu permanece relativamente indiferente ao seu mundo. Indiferença que pode ser justificada pela amnésia adquirida na guerra. Opondo-se apenas a alguns milicos, o personagem de Chaplin é regular até um momento, o momento do discurso.Numa substituição genial o barbeiro judeu dá lugar a Hynkel, ditador que possui fisionomia idêntica à do barbeiro. E é esse o momento chave do filme, o momento em que o ditador faria pronunciamento e falaria às massas divulgando a tomada de uma nova região. E, à semelhança de Ibsen, Chaplin nesse momento opera uma mudança inesperada que tira nossa razão do eixo.O pacato barbeiro, travestido de imperador, é levado ao centro do palanque e é instigado a falar. Mas o que falar? O que dizer a um mundo que acabara de sair de uma desumana guerra e estava caminhando indiferentemente a outra, tão horrenda quanto? E é aqui que Charles Chaplin põe de lado todas as características do barbeiro e utiliza o personagem como veículo para sua própria voz. Ele tinha algo a dizer. Ibsen operava da mesma maneira. A fala de Nora na cena final de Casa de bonecas não é fidedigna com a personagem na maior parte da peça. A personagem aqui dá claramente espaço à voz do autor.

Não poderei discorrer sobre a fala final do filme. Esse é um texto que não precisa de comentários. Ele fala por si só. E, é claro, funciona melhor na tela, com o seu criador proferindo essas belas palavras que seguem abaixo.
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Fala final de O Grande Ditador.
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Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar a todos - se possível - judeus, o gentio... negros... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, emperdenidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.
Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avançodo progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos. Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!
No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem- não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto- em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância,ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah?! O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio eda brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!
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Bruno Pilastre.

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