sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Címbalo


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Assistindo um show do Pink Floyd gravado em 1970, em Los Angeles, encontrei uma música até então desconhecida; Cymbaline. Minha preferência pelos trabalhos pós-Dark Side limitaram a apreciação dos trabalhos anteriores. Com exceção de Bike e Atom Hearth Mother, juntamente com os clássicos Arnold Layne e Astronomy Domine, os trabalhos iniciais da Era Syd Barret não me cativaram tanto.
Lendo o site Desciclopédia encontrei uma pseudofrase que é atribuída a Oscar Wilde, onde se diz: "Floyd é Glamour!" Logo em seguida podemos ler: "Não, Floyd é Gilmour!" De fato, a entrada de Gilmour proporcionou uma qualidade vocal muito grande ao grupo. Como dizem as más línguas, Roger Waters não canta. Sussura, grita, ou usa playback. Gilmour não.
Na música Cymbaline (http://www.youtube.com/watch?v=pl9JwM3MX4s), Gilmour vai da voz mais suave à mais dramática. Essa variação é muito importante. Semelhante a Echoes, Cymbaline possui a oposição claro/escuro. Para ir de encontro à luz, o personagem pede, imerso em seu estado de vigília quase proustiano, para ser acordado. No momento que poderíamos denominar "vigília", Gilmour canta calmo, suave. No momento do pedido, quase um grito de socorro, canta-se: E está na hora, Címbalo. E está na hora, Címbalo. Por favor, me acorde. Encontramos aqui o momento dramático dessa pequena peça musical. Após o pedido me acorde, Nick Mason toca teatralmente o címbalo. Mas o toque parece não surtir efeito. O personagem parece permanecer em seu sono, no seu estado de vigília.
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Portanto, ele já não dorme
Nunca dormiu
Pede, agonísticamente
Para ser acordado desse eterno
Semi-viver
Desse eterno Vir-A-Ser
Intenta, tenta Ser
Diferentemente dos que esperam Godot
Ele espera por ele mesmoEspera por alguma luz
Que o traga de volta à vida
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-Pilastre-

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

O Grande.... Chaplin


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O teatro de Ibsen sempre me impressionou. Aquelas mudanças inesperadas que ocorrem ao final de suas peças tiram nossa razão do eixo. Não é nada beckettiano, levando à reflexão crítica ou coisa parecida. Casa de bonecas faz com que lancemos nosso olhar para nosso próprio comportamento, para nossas próprias atitudes. E essa é uma qualidade que muito aprecio em uma obra literária.

Mas nunca tinha experimentado essa reflexão na chamada Sétima Arte. Franz Capra fez algo genial com Felicidade não se compra. Esse é o tipo de filme que, após assistir a cena final, a gente fica estático por um bom tempo. Ocorre um tipo de catarse que realmente nos leva a uma profunda reflexão interior. Mas não era semelhante à literatura.
Até que assisti a O Grande Ditador, de Charles Chaplin. Para limitar, me aterei somente às semelhanças desse filme com a obra de Ibsen. O filme é vasto de temática e claro está que não abarcarei todos os aspectos apresentados nele.

No decorrer de todo o filme, o barbeiro judeu permanece relativamente indiferente ao seu mundo. Indiferença que pode ser justificada pela amnésia adquirida na guerra. Opondo-se apenas a alguns milicos, o personagem de Chaplin é regular até um momento, o momento do discurso.Numa substituição genial o barbeiro judeu dá lugar a Hynkel, ditador que possui fisionomia idêntica à do barbeiro. E é esse o momento chave do filme, o momento em que o ditador faria pronunciamento e falaria às massas divulgando a tomada de uma nova região. E, à semelhança de Ibsen, Chaplin nesse momento opera uma mudança inesperada que tira nossa razão do eixo.O pacato barbeiro, travestido de imperador, é levado ao centro do palanque e é instigado a falar. Mas o que falar? O que dizer a um mundo que acabara de sair de uma desumana guerra e estava caminhando indiferentemente a outra, tão horrenda quanto? E é aqui que Charles Chaplin põe de lado todas as características do barbeiro e utiliza o personagem como veículo para sua própria voz. Ele tinha algo a dizer. Ibsen operava da mesma maneira. A fala de Nora na cena final de Casa de bonecas não é fidedigna com a personagem na maior parte da peça. A personagem aqui dá claramente espaço à voz do autor.

Não poderei discorrer sobre a fala final do filme. Esse é um texto que não precisa de comentários. Ele fala por si só. E, é claro, funciona melhor na tela, com o seu criador proferindo essas belas palavras que seguem abaixo.
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Fala final de O Grande Ditador.
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Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar a todos - se possível - judeus, o gentio... negros... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, emperdenidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.
Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avançodo progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos. Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!
No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem- não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto- em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância,ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah?! O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio eda brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!
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Bruno Pilastre.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

a coca-cola, a cocaína e os cocaleros

ENERGY DRINK




No ano passado, na Facultad de Ciencias Económicas de Buenos Aires, foi realizado o II Foro Internacional de la Hoja de Coca, com a participação de cientistas, empresários, técnicos, indígenas, políticos e membros da sociedade civil organizada da Argentina, Peru, Equador, Colômbia e Bolívia. Ali, discutiu-se que a ONU retire a folha de coca da categoria de veneno e estupefaciente. Discutiu-se também sobre a importância da luta em defesa deste patrimônio cultural dos povos indígenas. De uso milenar, a folha de coca tem seu uso medicinal e imprecações familiares, sociais, econômica e espirituais que não podem ser negligenciados por conta do fracassado WAR ON DRUGS implementado pelos estadunidenses.

Levantamentos históricos e arqueológicos mostram que o uso da folha de coca está diretamente ligado `as cosmovisões e crenças dos povos andinos. Hoje, discute-se a sua industrialização e a exploração comercial de produtos derivados da folha, a coca tem “un montón de derivados”, todos associados `a saúde e bem-estar. A folha de coca não é droga. O Papa João Paulo II, quando visitou La Paz, ele e todos os passageiros do avião em que estava, se serviram da folha de coca para combater o soroche (mal da altitude).

No entanto, o governo estadunidense cria um falso alerta contra as drogas e a produção de cocaína como forma única e exclusiva de desarticular a guerrilha de esquerda existente na Colômbia. O propalado e fracassado PLAN COLOMBIA previa, entre outras “tonterías” o uso de elementos biológicos contra as plantações em Colômbia (com o uso de lagartos devoradores de folhas!). Mas se o plantio está difundido em quase todo o continente, por que ao invés de uma batalha localizada e inócua os Yankees não declaram uma guerra continental contra a droga? Por que o problemas deles não é a cocaína.

Os cocaleros, os agricultores indígenas e as populações que fazem uso medicinal da folha nada lucram com a produção de cocaína, pelo contrário. Eles gostariam muito que parassem de produzir cocaína para que pudessem plantar em paz e comercializar produtos “limpos” extraídos a partir da folha. Porém, se não interessa `as populações locais e aos campesinos a produção de cocaína, a quem interessa? Vejamos.

A folha de coca é verde, no entanto a cocaína é branca e em pó. Logo depende do grande uso de tóxicos como querosene, éter, acetona e ácido sulfúrico (que contamina os rios, os peixes e as populações rurais). Sabe-se que na Colômbia não há indústrias químicas. Pergunta: quem vende o fármaco para a produção da droga? Toneladas! Acertou quem disse as grandes multinacionais. A grana preta oriunda do comércio da cocaína (lembrem-se que se trata do terceiro maior negócio do planeta terra) não é tributada nos países de origem, porque é ilegal. Para onde então vai essa grana? Acertou quem disse que ela será lavada nos paraísos fiscais. E onde ficam os paraísos fiscais, as lavanderias offshores? Até onde eu sei eles pertencem `a Inglaterra, aos Esteites, `a Franca, `a Alemanha etc. Dá pra entender quem lucra com a venda de cocaína? É a narcocracia internacional.

Evo Morales, perguntou num fórum internacional que “se a Coca-cola pode usar a folha de coca por que os bolivianos não podem?” Ouviu-se um silêncio tumular, como diria Odorico Paraguaçu. Dizem que a Coca-Cola parou de usar folha de coca em sua fórmula desde 1929. Então porque os Estados Unidos importam toneladas de folhas de Coca por ano? Estariam os estadunidenses, com o beneplácito do governo, dando outro uso a estas folhas? Lembrem-se: um gato escondido com o rabo de fora está mais escondido que um rabo escondido com o gato de fora.

O fracassado plano contra a guerrilha, camuflado como plano contra as drogas em Colômbia, iria reduzir, segundo cálculos do governo Bush, a oferta de cocaína no mundo, aumentando o seu preço e afugentando compradores. No entanto, desde 2004 o número de hectares na região andina com plantio de Coca continua o mesmo, 200 mil hectares, aumentou a oferta de cocaína no mundo e o seu preço baixou. E mais, o uso da coca-cana, rasteira, está caindo. Agora entra em cena, oriunda do Perú, a cocatingomaria, que cresce na vertical, é mais resistente, dá mais folhas e permite um plantio e um colheita muito maior que outrora. Nos Esteites tem um energético chamado cocaine, tem uma lata igual a da coca-cola, vermelha e com escrita em branco, com uma fonte que lembra um giz escolar. Está em franca expansão de consumo.


Os Estados Unidos não conseguem fazer com que os seus jovens doentes parem de consumir freneticamente cocaína, não reduzem a sua entrada pelas fronteiras (os estadunidenses consomem a metade da cocaína produzida no mundo!) e nem proíbem a entrada de toneladas de dólares provenientes do tráfico internacional em seus paraísos fiscais; "é a economia, idiota!". Mas querem impedir o povo andino de comercializar produtos limpos. Querem jogar o bebê fora da bacia junto com a água suja!




Lelê Teles, Brasília

sábado, 21 de abril de 2007

poema para as aves e os peixes

mi amor


O Pássaro não sabe se voa ou se nada; o pássaro não sabe de nada. Os peixes não distinguem se voam ou se nadam. Analisando friamente os movimentos são os mesmos, o uso de asas-nadadeiras, o aproveitamento de correntes (de ar e de água) e a limitação ao pélago. Estes seres pelágicos, que flutuam no corpo da água ou no corpo do ar simplesmente se movem, ou melhor, o movimento é que se movimenta neles, como quis Pessoa. O avião e o submarino, ave-peixe artificial, também não tem consciência se voa ou se nada. Mas é certo que quando choram, os peixes choram lágrimas transparentes. É certo que uma ave-maria, um ave-césar não passarão. A diferença do aquário para a gaiola evidentemente é a água. Engaiolados, os pássaros cantam uma música triste. Aquarianos, os peixes choram. Quando a gente acende a luz, pra onde vai a escuridão.


Lelê Teles, Brasília